No fundo, ao escrever estou colocado na posição de quem fala."
José Saramago, in Conversas, Mário Ventura, Publ. Dom Quixote, 1986
Uma das características mais notórias de José Saramago é a utilização peculiar da pontuação.
Principal marca: nas passagens do discursodirecto:
-Eliminação do travessão e dos dois pontos;
-A substituição do ponto de interrogação e de outros sinais de
pontuação pela vírgula;
-Sendo o início de cada fala apenas assinalado pela
maiúscula.
Adjectivação dupla e superlativada
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«correm águas abundantes
e dulcíssimas para o futuro pomar e horta…» (p.88)
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Adjectivação irónica
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« feliz povo este que
se regala de tais festas e desce à rua para ver desfilar a nobreza…» (p.86)
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Aforismo
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«Não está homem livre
de julgar abraçar a verdade e achar-se cingido como o erro. Como livre também
não está de supor abraçar o erro e encontrar-se cingido com a verdade…»
(p.164)
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Aliteração
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«O capelão que leva a
cauda quando a cauda tem de ser levada…» (p.86)
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Arcaísmo
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«devia ser ledice»
(p.314)
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Comparação
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«e assim fica,
enroscada como toupeira que encontrou pedra no caminho» (p.15)
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Construções
anafóricas
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«Agora não se vá
dizer que, por segredos de confissão divulgados…»; «Agora não se se vá dizer que D. Maria
Ana…»; «Agora não se vá dizer que el-rei contará as luas…» (p.26)
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Diminutivos
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«o bispo vai fazendo
sinaizinhos da cruz...» (p.28); «fitinhas de cores» (p.29); «povinho
derramado em pavores e súplicas» (p.29)
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Enumeração
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«a cidade é imunda,
alcatifada de excrementos, de lixo, de cães lazarentos e gatos vadios, e lama
mesmo quando não chove» (p.28); «Está o penitente diante da janela da amada,
em baixo na rua, e ela olha-o dominantemente, talvez acompanhada de mãe ou
prima, ou aia, ou tolerante avó, ou tia azedíssima...» (p.29)
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Expressões populares/
provérbios
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«ainda agora a procissão
vai na praça» (p.11); «olho vê, mão pilha» (p.20)
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Gradação
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«O homem primeiro
tropeça, depois nada, depois corre, um dia voará…» (p.63)
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Hipérbole
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«à vista do mar de
povo que enchia a praça…» (p.98)
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Inversões de
expressões bíblicas
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«Pater nostre que non estis in coelis» (p.159)
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Ironía
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«El-rei, como os
infantes seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição depois de
terminado o ato de fé…» (p.51)
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Jogos de palavras
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»os santos no oratório
apuram o ouvido às ardentes palavras que debaixo do sobrecéu se murmuram, sobre o céu está, este
é o céu e não há melhor…» (p.158)
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Latinismos
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«Te Deum laudamus» (p.87)
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Metáfora
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«a ordem franciscana
colherá a palama a vitória» (p.26) «a procissão á uma serpente enorme que não
cabe direita no Rossio...» (p.158)
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Onomatopeias
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«arre burro, toque,
toque» (p.274)
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Polissíndeto
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«Isto que aqui vês
são as velas que servem para cortar o vento e que se movem segundo as
necessidades, e aqui é o leme com que se dirigirá a barca […] e este é o
corpo do navio dos ares...» (p.67)
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Quiasmo
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«todos têm uma parte
de ciência e outra de mando, a ciência por causa do mando, o mando por causa
da ciência...» (p.252)
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Repetições
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«não fales, Blimunda,
olha só, olha como esses teus olhos que tudo são capazes de ver...» (p.53)
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Sinestesia
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«puxa o cordão da
sineta […] pairam cheiros diversos» (p.17)
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Registo de língua
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(Popular; Familiar;
Cuidado)
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Interacção com a
literatura portuguesa
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(Quadros populares;
contos tradicionais) (Luís de Camões, Os Lusíadas; Padre António Vieira,
Sermão e Santo António aos Peixes) (Fernando Pessoa, Mensagem) (Estilo
Barroco)
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Introdução do
fantastico
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«Entre S. Sebastião da
Pedraria da Pedreira e a Ribeira entou Blimunda em trinta e duas casas,
colheu vinte e quatro nuvens fechadas, em seis doentes já as não havia,
talvez as tivessem perdido há muito tempo, e as restantes duas estavam tão
agarradas ao corpo que, provavelmente, só a morte as seria capaz de arrancar
de lá. Em cinco outras casas que visitou, já não havia vontade nem alma,
apenas o corpo morto, algumas lágrimas ou muito alarido.» (p.182)
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A música como
metáfora de arte literária
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«Se a música pode ser
tão excelente mestra de argumentação, quero já ser músico e não pregador,
Fico obrigado pelo cumprimento, mas quisera eu que a minha música fosse um
dia capaz de expor, contrapor e conclui como fazerem sermão e discurso»
(p.164)
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Adaptado de: http://redouanermili3.blogspot.pt/p/linguagem-e-estilo.html
Manual Interacções Português 12ºAno
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