quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Linguagem e estilo de José Saramago

"Cada frase, ou discurso, ou o período, cria-sedentro de mim mais como uma fala do que como uma escrita. A possibilidade da espontaneidade, a possibilidade do discurso em linha recta, enfim, a direito, é muito maior do que se eu me colocasse na posição de quem escreve. 
No fundo, ao escrever estou colocado na posição de quem fala."

José Saramago, in Conversas, Mário Ventura, Publ. Dom Quixote, 1986
 
 
Uma das características mais notórias de José  Saramago é a utilização peculiar da pontuação.
Principal marca: nas passagens do discursodirecto:
-Eliminação do travessão e dos dois pontos;
-A substituição do ponto de interrogação e de outros sinais de
pontuação pela vírgula;
-Sendo o início de cada fala apenas assinalado pela
maiúscula.







Adjectivação dupla e superlativada
«correm águas abundantes e dulcíssimas para o futuro pomar e horta…» (p.88)
Adjectivação irónica
« feliz povo este que se regala de tais festas e desce à rua para ver desfilar a nobreza…» (p.86)
Aforismo
«Não está homem livre de julgar abraçar a verdade e achar-se cingido como o erro. Como livre também não está de supor abraçar o erro e encontrar-se cingido com a verdade…» (p.164)
Aliteração
«O capelão que leva a cauda quando a cauda tem de ser levada…» (p.86)
Arcaísmo
«devia ser ledice» (p.314)
Comparação
«e assim fica, enroscada como toupeira que encontrou pedra no caminho» (p.15)
Construções anafóricas
«Agora não se vá dizer que, por segredos de confissão divulgados…»;  «Agora não se se vá dizer que D. Maria Ana…»; «Agora não se vá dizer que el-rei contará as luas…» (p.26)
Diminutivos
«o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz...» (p.28); «fitinhas de cores» (p.29); «povinho derramado em pavores e súplicas» (p.29)
Enumeração
«a cidade é imunda, alcatifada de excrementos, de lixo, de cães lazarentos e gatos vadios, e lama mesmo quando não chove» (p.28); «Está o penitente diante da janela da amada, em baixo na rua, e ela olha-o dominantemente, talvez acompanhada de mãe ou prima, ou aia, ou tolerante avó, ou tia azedíssima...» (p.29)
Expressões populares/ provérbios
«ainda agora a procissão vai na praça» (p.11); «olho vê, mão pilha» (p.20)
Gradação
«O homem primeiro tropeça, depois nada, depois corre, um dia voará…» (p.63)
Hipérbole
«à vista do mar de povo que enchia a praça…» (p.98)
Inversões de expressões bíblicas
«Pater nostre que non estis in coelis» (p.159)
Ironía
«El-rei, como os infantes seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição depois de terminado o ato de fé…» (p.51)
Jogos de palavras
»os santos no oratório apuram o ouvido às ardentes palavras que debaixo  do sobrecéu se murmuram, sobre o céu está, este é o céu e não há melhor…» (p.158)
Latinismos
«Te Deum laudamus» (p.87)

Metáfora

«a ordem franciscana colherá a palama a vitória» (p.26) «a procissão á uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio...» (p.158)
Onomatopeias
«arre burro, toque, toque» (p.274)
Polissíndeto
«Isto que aqui vês são as velas que servem para cortar o vento e que se movem segundo as necessidades, e aqui é o leme com que se dirigirá a barca […] e este é o corpo do navio dos ares...» (p.67)
Quiasmo
«todos têm uma parte de ciência e outra de mando, a ciência por causa do mando, o mando por causa da ciência...» (p.252)
Repetições
«não fales, Blimunda, olha só, olha como esses teus olhos que tudo são capazes de ver...» (p.53)
Sinestesia
«puxa o cordão da sineta […] pairam cheiros diversos» (p.17)
Registo de língua
(Popular; Familiar; Cuidado)
Interacção com a literatura portuguesa
(Quadros populares; contos tradicionais) (Luís de Camões, Os Lusíadas; Padre António Vieira, Sermão e Santo António aos Peixes) (Fernando Pessoa, Mensagem) (Estilo Barroco)
Introdução do fantastico
«Entre S. Sebastião da Pedraria da Pedreira e a Ribeira entou Blimunda em trinta e duas casas, colheu vinte e quatro nuvens fechadas, em seis doentes já as não havia, talvez as tivessem perdido há muito tempo, e as restantes duas estavam tão agarradas ao corpo que, provavelmente, só a morte as seria capaz de arrancar de lá. Em cinco outras casas que visitou, já não havia vontade nem alma, apenas o corpo morto, algumas lágrimas ou muito alarido.» (p.182)
A música como metáfora de arte literária
«Se a música pode ser tão excelente mestra de argumentação, quero já ser músico e não pregador, Fico obrigado pelo cumprimento, mas quisera eu que a minha música fosse um dia capaz de expor, contrapor e conclui como fazerem sermão e discurso» (p.164)





















Adaptado de: http://redouanermili3.blogspot.pt/p/linguagem-e-estilo.html

Manual Interacções Português 12ºAno

Sem comentários:

Enviar um comentário